segunda-feira, 20 de agosto de 2018

O 1º dia em São Tomé - 1ª parte

Serviço despertar a tocar! São 7 horas! Bom dia!
Um dia de mistério para conhecer ao vivo e a cores o nosso amigo Domingos Barros. O ponto de encontro era na sala de pequeno almoço.
Às 8 horas estávamos prontinhos. Eis que chegou o nosso tão desejado guia.
Ao olhar para o seu jipe, já com uns bons quilómetros de andamento, ficamos a olhar a ver se iríamos chegar ali ao fim do dia. Mas como dizia a minha querida amiga Olinda Beja Beja, o carro abana por todo o lado, mas não avaria.
Quando desci, já estava o Barros com a minha mãe, a Joana e a Maria José.
Estavam todos cercados por três rapazolas que tentavam vender o seu artesanato. Quando cheguei junto do Barros, o cumprimento foi de abraço apertado, como se nos conhecemos há anos e estivéssemos agora a matar saudades. Um sorriso aberto, acompanhado de um olhar intenso, fez com que qualquer medo ou bloqueio caísse por terra.
Eis que chega o Diogo. A equipa dos seis magníficos estava pronta para ir à aventura naquele jipe tão desgastado, mas cheio de energia para nos levar a estórias nunca ouvidas.
Entrarmos no jeep foi tarefa difícil até estarmos familiarizados com as dimensões da viatura.Cada um assumiu um número. A d. Aloma, minha mãe, era a number one, a Maria José a number two, a Joana a number three, o Diogo o number four e eu era o number five. Esta passou a ser a ordem em que cada um se acomodava no interior do jeep.

Palácio da Presidência
Mar, do outro lado da rua do Hotel.










A escolha do trajeto foi atribuída ao chefe da excursão - o Barros.
Todos a postos? Sim, respondemos. Vamos no modo "leve-leve". O Barros sorriu por já utilizarmos expressões de São Tomé.
Passamos pela empresa de comunicações para comprar o cartão local, mas nunca o conseguimos utilizar convenientemente. A recomendação que damos é que instalem e utilizem o Whatsapp.
O próximo passo foi trocar euros por dobras. Sinceramente parecia que estávamos a comprar droga ou a traficar tabaco ou bebidas alcoólicas. O Barros parou o Jeep. Já tínhamos juntado os euros que queríamos trocar. Aproximam-se dois homens da minha janela. cumprimentam todos os que iam na viatura. De seguida perguntam ao Barros o que era preciso. Ele disse que queríamos trocar uma determinada quantia. Os homens abandonam o carro, viram a esquina e logo de seguida surgem com maços de notas, ainda com a cinta do banco. Entregam o dinheiro para o Barros conferir. Depois do Barros validar os valores, pega no nosso dinheiro e entrega-o aos dois homens, que continuavam pendurados na minha janela.
Venda de jaca na rua - fruta tropical
O cenário envolto era de abandono. Esta rua, junto ao mercado antigo, era escura. Confesso que nos primeiros minutos estava a sentir-me como ator daqueles filmes de gangues, onde se traficam armas. Mas a verdade é que, passado pouco tempo, senti-me mais seguro e confortável, chegando a despedir-me destes homens com um aperto de mão.
Agora que estava tudo a postos, fizemo-nos à estrada. Passamos por coqueiros e cacaueiros. O Barros ia descrevendo o que era cada árvore, cada planta, cada terra por onde passávamos.
Uma das árvores gigantes e que impunham respeito eram as cidrelas. Árvore macia, boa para esculpir, que tem nos seus componentes produtos naturais que fazem com que não ganhe o vulgar bicho da madeira. É desta madeira que os artesãos fazem as suas máscaras, caixas para chá, etc.
Fomos andando e passamos por Vila de Santo Amaro, Ilhana e Awa Casada (Água Casada).
Estamos em final de julho, o que corresponde um clima outonal, com um calor húmido, que parecia acentuar os odores que vagueavam pelo ar.

Cacau verde, no cacaueiro
Cacau maduro
A trupe no jipe














O Barros parou o jipe para que nos sentíssemos uns verdadeiros exploradores do desconhecido e pudéssemos entrar, ver, ouvir e cheirar toda a natureza que nos envolvia.
Após uma vasta sessão fotográfica, seguimos viagem. Passamos por Vila do Conde. Chegou o momento em que o Barros começou a explicar-nos que nos aproximávamos de um local muito importante e inspirador para a minha querida amiga e escritora Olinda Beja. Este espaço era um gigantesco Oká, que serviu de inspiração para o texto "À Sombra do Oká".

Oká de inspiração a Olinda Beja
Raízes do Oká
Copa do Ok


Estávamos a tirar fotografias ao Oká e eu imaginava a Olinda, com o seu feitio terno, inspirador, sensível e simples, a observar cada raiz que brotava daquele chão, a olhar para cada ramo e para a infinita altura a que o seu imponente tronco chegava.
Enquanto vagueava nos meus pensamentos, dou conta de quatro crianças que estavam escondidas no meio das raízes do Oká, que nada pediam a não ser um pouco da nossa atenção. De seguida aparece uma mulher jovem, com uma criança ao colo. A simplicidade e humildade do sorriso de toda a família levaram a que parecesse que já nos conhecíamos há algum tempo.

Voltei às fotografias. Enquanto disparava, ouvia um dos pequeninos dizer "não me tiras fotografias. Tu não me vês." O meu olhar desceu do ponto alto da árvore até ao local de onde vinha aquela vozinha. Só via dois olhos, como que faróis, e um sorriso muito feliz, escondidos no meio deixadas pelas árvores que ganhavam estrutura de como se de uma cabana se tratasse, sobre as longas raízes que se expandiam como braços de um polvo gigante, saído das 20.000 léguas submarinas.




A minha vontade, apesar de recear fazê-lo, foi tirar fotos a aqueles rostos fantásticos, carregados de um olhar e sorriso ingénuos, que me olhavam com o desejo de atenção. Perguntei-lhes se podia tirar fotografias. Eles disseram que sim, como se de modelos experientes se tratassem, à espera da sua sessão fotográfica.


Para justificar a quantidade de fotografias naquele espaço, expliquei à mãe daquelas crianças que aquele Oká havia servido de inspiração a uma amiga para escrever um livro, ao que ela me responde "Olinda Beja?!" Disse-lhe que sim. Depois perguntei-lhe o nome de família. Fiquei a saber que era a família Nascimento, composta pelo casal e cinco filhos.
Mais umas fotos com todos e o Barros começava a "tocar a sineta" para partirmos, pois ainda havia muito para conhecer.



Família Nascimento

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