terça-feira, 21 de agosto de 2018

O 1º dia em São Tomé - 2ª parte

E a viagem prosseguiu.
Passamos pela ponte do Rio do Ouro, onde as mulheres lavavam a roupa. A maioria das casas sem água canalizada, faziam com que as mulheres,mais e menos jovens se encaminhassem até aos ribeiros para lavar a roupa e a louça.
Para beber, existem pontos de água - fontes -, pelas aldeias.
As meninas, as moças, as mulheres, tudo transportam à cabeça. Era bizarra a situação de uma criança que transportava as suas chinelas à cabeça.
Passamos por Guadalupe. Parecia que estava tudo em festa. Era domingo. Ouvia-se música tocada por percussionistas, cujos os instrumentos eram coisas simples do quotidiano, desde um cântaro a um ferro. Nas ruas, as mulheres expunham os mais diversos petiscos vindos do mar pelas mãos dos seus maridos.
Depois seguimos para a Praia das Conchas, que de conchas hoje em dia tem muito pouco. Uma praia extremamente bonita, com rocha vulcânica, pequena e de difícil usufruto, face ao piso irregular.
Apesar de tudo, a cor azul do mar e a imensidão de vista que tínhamos à nossa volta levava-nos a pensar estarmos no paraíso - mal sabíamos nós o que ainda estava por ver.

Praia das Conchas
Maria José
Eu e o Barros na Praia das Conchas



Aloma Simões
Joana Carreto
Eu e Diogo Consciência
Retomamos a estrada, na qual qualquer homem, mulher ou criança esboçavam um sorriso para nós, levantando a mão para nos dizer adeus.
Eis que chegamos a uma das maravilhas de São Tomé - a Lagoa Azul.

Praia da Lagoa Azul
Foi o momento da paragem para um bom mergulho. Rapidamente acedemos à beira de água, despimo-nos e atirámo-nos àquele azul maravilhoso.

Praia da Lagoa Azul
O belo do banho, antes da picadela do Ouriço
















O charme do Diogo

















Azar dos azares, e porque não segui os conselhos do meu amigo Sérgio Barão (um experiente de terras de África), que era levar umas sandálias próprias para tomar banho, atrevi-me a dar o primeiro mergulho. Ao levantar-me pisei um ouriço do mar. Espetei mais de 12 picos no pé direito. As dores das picadelas foram mais que muitas. Mas não queria estragar aqueles momentos únicos ao grupo e lá continuei.


Ajudem-me por favor! Tenho o pé cheio de picos.

As pessoas que estavam à volta (grupos santomenses e asiáticos) vinham saber o que se passava. Lá me receitaram um tratamento tradicional, que mais à frente falarei. Mas assustaram-me muito quando diziam que dava umas febres muito chatas.
A certa altura surge um aglomerado de gente a observar alguém que estava sentado a raia. Pensei que fosse mais uma vítima do ouriço do mar. Não. Não era! Era a curiosidade do peixe apanhado por um homem, em apneia. Cheguei à conclusão que os homens de São Tomé todos são excelentes nadadores.
O pescador e o pescado na Praia da Lagoa Azul



O pescado
O pescado











Ao fim ao cabo, o povo de São Tomé não passa fome. Estica o braço e apanha uma fruta (banana, jaca, cacau, fruta pão, carouço...), lança o fio ao mar, ou mergulha, e trás peixe.
Este homem havia apanhado Peixe Vermelho, Polvo, Peixe Balão (Peixe Bubu, no dialeto local), Moreia e mais alguns.

Adeus Lagoa Azul

Estava na hora de continuar a viagem. Ainda era cedo para almoçarmos. O destino era a Roça do Rio do Ouro, agora com o nome de Roça Agostinho Neto.
Vista da rua principal
Hospital da roça

Estátua de homenagem a Agostinho Neto


Vista da roça
Vista da roça




Escola da Roça
Casa de apoio à roça
Casa do gestor da Roça



Mensagem de acolhimento a Agostinho Neto
Mensagem de acolhimento a Agostinho Neto


A cana do açúcar, o ouro de África, predomina nesta roça.
Há alguns anos, Agostinho Neto visitou-a e realizou aqui um jantar. A partir do momento em que uma figura tão importante como Agostinho Neto visitou esta roça, então mudaram o seu nome.
Uma das roças importantes e com visão no passado, agora está abandonada no campo da sua exploração. Em tempos teve um hospital, cujo edifício monumental e colonialista encima a rua principal da roça.
Ainda hoje tem escola e outros pequenos serviços de apoio à comunidade.
Ao entrar na roça, paramos o jipe junto ao que resta do hospital. Logo um grupo de crianças correu para nós a pedir material escolar. Este foi o único local onde os meninos nos pediram de forma direta esse mesmo material. Vinham a mascar cana de açúcar.

A mãe e a Julieta

Uma menina - Julieta de nome - "colou-se" à minha mãe. Sempre abraçada, manifestava o desejo que a trouxéssemos para Portugal.
A Maria José foi escolhida pela Guida.

Maria José e a Guida

No meio daquele grupo de crianças surge um pequenino com uma cicatriz na cabeça e uma espécie de garrafa de vinho, a apelidar-se de "tonto".











O Diogo tinha como fãs o irmão da Guida, o "buraquinho na cabeça".
Eu também não tinha mãos para dar a tantos, bem como a Joana, que tinha duas meninas que não deixavam de lhe mexer no cabelo, com vontade de lhe fazerem trancinhas, digo eu.
Ainda passamos na Praia Fernão Dias, onde aconteceu o grande massacre de 1953, entre portugueses e santomenses, por causa das políticas colonizadoras do governador Carlos Gorgulho.









De seguida passamos ainda pela Praia do Governador. Uma praia com uma espécie de anfiteatro e uma vista muito bonita. Foi aqui que apanhamos imensas conchas e búzios. 
Após esta aventura fizémo-nos à estrada até Guadalupe e Micoló, para saborear as iguarias confecionadas e vendidas à beira da estrada, à porta de cada casa, por todos os particulares e residentes da aldeia.
Logo à entrada da aldeia havia um grupo de homens que cantava e acompanhava a cantoria com percussão feita de todos os materiais que encontravam (um tubo de metal, um cântaro...).

Grupo de homens a tocar e a cantar de forma espontânea

Paramos o jipe e fomos ver o peixe que estava a ser grelhado "leve-leve", como tudo o que vimos.
Durante o almoço, degustamos búzios, polvo, banana pão e fruta pão grelhadas da D. Clarisse e para regar a bela cerveja Rosema. 

Grelhador da D. Clarisse
D. Clarisse a preparar o nosso almoço



A sala de jantar de D. Clarisse
Fruta Pão assada



Búzios grelhados
Polvo grelhado










Regressamos à capital. Visitamos o Parque Popular (local sugerido pelo Barros para jantarmos) e acabamos no hotel.
Pelo caminho o nosso amigo Barros ainda nos mostrou os chamados "motoqueiros" - os táxis individuais, que existem em São Tomé



Muita emoção para digerir, é verdade. Mas a que mais marcou este dia foi o grupo de crianças da Roça do Rio do Ouro.
Deixados no hotel para descansar, fomos dar uns mergulhos à piscina do hotel. 


Pedi na receção do hotel azeite quente para tirar os picos do ouriço. O Diogo bem que tentou ajudar. Na nossa ignorância, não tínhamos percebido que o líquido que nos tinham enviado ao quarto era óleo de palma, acompanhado de uma vela para aquecer o óleo espalhado no próprio pé. Tentativa frustrada, lá tive que continuar com uma dúzia de picos cada vez mais espetados no pé.
Energias refeitas, dirigimo-nos para o Parque Popular, onde jantamos no restaurante B24.
Este restaurante bem simpático e simples, serviu como ementa búzios, peixe fumo e frango - tudo grelhado.






Após o jantar, resolvemos explorar as ruas da capital à noite e a pé. Passamos pela marginal e pelas as ruas junto ao mercado velho. Tudo vivia na penumbra da noite, mas em segurança.




Chegamos ao quarto e toca a descansar. O dia que se seguia prometia ser mais uma caixa de surpresas.


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